05 DICAS DE ARQUITETURA HOSPITALAR

Você não precisa ter medo da Arquitetura de Saúde. Na verdade, assim como toda nova área de conhecimento, precisa estudar. Eu ainda estudo e estou aprendendo coisas novas todo dia, mas isso já acontece há quase 4 anos, então juntei algumas coisas que já aprendi até aqui e estou compartilhando por meio desta postagem, que veio a partir deste vídeo (clique aqui). Aqui estão 5 dicas que eu gostaria de ter ouvido antes de fazer meu primeiro projeto na área da saúde:


1. FLEXIBILIDADE

Esse conceito está em alta nos últimos anos, seja nas casas ou espaços de trabalho, algumas soluções simples como conceitos abertos residenciais, outros mais elaborados como espaços que literalmente se transformam com poucos movimentos, mas é uma tendência cada vez mais presente nos nossos dias. A questão é que talvez seja um conceito que não vem rapidamente à sua cabeça quando falamos de arquitetura hospitalar. Pois bem, precisamos falar sobre isso. Quando nós estamos dentro de uma estrutura hospitalar e percebemos como funciona o trabalho do dia a dia dos profissionais, como muda de um ano para o outro a maneira de trabalhar, a maneira de cuidar dos pacientes, da tecnologia médica e da assistência como um todo, isso faz toda diferença.

Um exemplo disso está acontecendo agora em 2020 com a pandemia do coronavirus e isso com certeza não estava no planejamento dos hospitais. Porém, aqueles que contavam com espaços que permitiam reorganizações de layout mais fáceis conseguiriam gerenciar a crise com menos problemas. Muitas soluções precisaram aparecer rapidamente e com a estrutura existente dos hospitais para atender não só os pacientes com COVID-19, mas também cuidar dos profissionais e dos outros tipos de pacientes que já estavam no hospital. Tudo muito rápido. Nós não queremos que a estrutura seja um problema, mas uma solução para esses momentos.

Para isso, toda decisão, desde a dimensão dos espaços já responde o quão flexível ele será no futuro. Cada ambiente precisa ser estudado individualmente e na grande maioria das vezes não deve ser considerada apenas a metragem mínima entregue pela RDC 50. Ela deve ser uma base de cálculo, mas precisa haver um estudo conjunto de outras normativas do ministério da saúde, além de alguns materiais de apoio como o SOMASUS, e o mais importante: o estudo individual do objeto. Afinal, precisamos fazer perguntas como: e se daqui alguns anos aumentar o número de médicos atendendo, terei que abrir mais consultórios? E se pararmos de fazer exames de imagem neste espaço, o que funcionaria aqui? Se esse hospital parar de receber um tipo específico de paciente, como funcionaria? E isso tudo precisa vir de um Plano Diretor.


2. ESCOLHA DE MATERIAIS

Muita coisa já é prevista na legislação do que pode ou não pode em um ambiente hospitalar quanto aos materiais de utilização, principalmente das superfícies, por conta da limpeza do espaço, mas há outros tipos de escolha de materiais que podem influenciar muito na obra que é no tipo de parede, por exemplo. As paredes em tijolo já foram substituídas por steel frame (ou drywall), que é um tipo de estrutura metálica de alumínio com as faces externas em placas de gesso ou cimentícias. Esse tipo de construção é muito mais limpo, gera muito menos entulho de obra, é mais fácil de ser mudado de lugar caso necessário, ou seja, é mais flexível, e é um material bem mais leve, que diminui a carga sobre a estrutura.

Lá no meu instagram eu postei uma vez uma obra que levantamos toda a estrutura metálica e instalamos as placas de gesso de 150 m² de paredes e 125 m² de forro em uma reforma completa em 10 dias (para ver clique aqui). Depois dessa obra tão rápida e limpa, eu nunca mais cogitei em usar tijolo no ambiente interno hospitalar. Além de ser muito mais fácil passar toda a infraestrutura por dentro da parede e fazer muito menos barulho para os pacientes.


3. PLANEJAMENTO

Cada etapa de uma reforma hospitalar precisa ser planejada. A gente brincava lá dentro do hospital que cada reforma era como trocar o pneu do carro enquanto ele andava. E era isso mesmo. Os atendimentos acontecendo, pacientes internados, cirurgias acontecendo, e nós ali, numa correria para reformas, tentando minimizar o barulho, sujeira, pensando no fluxo de entrada e saída de pessoal, insumos, etc. A obra feita após o hospital já estar em funcionamento sempre vai gerar incômodo, mas ele pode ser minimizado com um bom planejamento multidisciplinar do profissional de arquitetura, direção do hospital e com as equipes de trabalho, onde juntos vão tentar montar esse quebra-cabeça.

O hospital que eu trabalhei tem blocos bem antigos, até de 1906 para você ter uma ideia, então o momento que a gente fosse entrar no setor para uma reforma, ele praticamente tinha que ser isolado e só reaberto com tudo pronto. Agora, como que um hospital de grande porte “perde” um setor de internação por seis meses, um ano, um ano e meio, ou que seja por uma semana se quer? O plano de contingência precisa fazer parte do projeto. Se não pode ser executado, não está bem projetado.


4. PESSOALIDADE

Vamos agora pensar sobre para quem é feito esse projeto. Quando nós vamos fazer um projeto de arquitetura, precisamos lembrar que ele será vivenciado por alguém. Então, se nós estamos fazendo um ambiente para um paciente de Traumatologia, por exemplo, que veio com a perna quebrada, ou acabou de ser resgatado de um acidente, precisamos entender como esse espaço se comunica com esse paciente e como pode auxiliar nesse momento. A ideia principal aqui é realmente tentar se colocar ao máximo no lugar de cada pessoa do espaço, seja o paciente, profissionais diretos ou indiretos. Pensando num paciente, precisamos pensar como funciona toda trajetória do indivíduo, desde que ele entra no hospital até ele sair, e todo esse entendimento vai gerar muitas soluções de projeto. Sejam elas sobre espaços, fluxos, iluminação, cores, sentimentos, ou seja, tudo.

Trazendo uma experiência pessoal, eu tava fazendo uma reforma em um centro cirúrgico neste hospital onde trabalhei e coincidentemente eu precisei fazer uma cirurgia nele bem na mesma época. Aproveitei pra ser tratado e já anotar tudo que via, sentia, problemas e até conversar com os profissionais. Cirurgia bem sucedida e ainda aproveitei o tempo de recuperação para escrever um briefing muito bem detalhado do que um paciente vê desde a chegada no hospital, a espera, o momento da cirurgia, recuperação e o momento da alta. Foi muito mais fácil fazer o projeto depois disso. Não digo que você precise marcar um procedimento para cada ambiente a ser projeto, claro. Mas o que quero que você entenda é que se colocar na pele do outro é essencial para entendê-lo e fazer um projeto que vá de encontro com o que ele precisa. Faça isso, nem que seja com uma visita guiada por algum hospital. Tenho certeza que você entenderá muito melhor como é ser um paciente, um acompanhante ou um profissional da saúde, e isso fará toda diferença na hora de desenhar. Não devemos ser apenas um cumpridor de regras, mas a partir disso, devemos criar ambientes que promovam saúde.


5. VALORIZE O NATURAL

Um hospital não é só definir o tamanho do leito, tamanho dos ambientes e infraestrutura interna, mas definir também o quão conectado ao mundo externo o paciente estará ao longo do tratamento. Há muitos estudos científicos que afirmam não só auxiliar no tratamento, mas também prevenir o delírio em pacientes acamados quando há maior contato com o ambiente externo, seja com vegetação, luz natural ou apenas o espaço aberto. Lembro de ver inúmeras vezes acompanhantes ou funcionários levando os pacientes até uma janela ou até uma porta que tivesse um contato maior com o espaço externo, e isso, por um instante, trazia uma tranquilidade ao paciente. Era muito especial cada momento que eu via isso no hospital, já que muitos ali estavam internados já há dias, semanas ou até meses no mesmo quarto e aquele era o único contato com o “mundo exterior” para ele.

Há muitos tipos diferentes de soluções que o arquiteto pode propor para minimizar os problemas de um hospital “frio”, e eu tenho certeza que uma das questões mais importante é o contato com a área externa. Não há quadro mais bonito que uma janela que abre para um jardim real, que muda com os anos, que é real. Essa “realidade” na paisagem do hospital faz toda diferença e traz vida ao espaço. O edifício hospitalar já é vivo pelo uso, pode se tornar vivo, também, pelas escolhas de relação dos ambientes internos e externos, mantendo a segurança, mas trazendo novas possibilidades de uso da edificação.





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2020, by Pablo Nunes